JUVENTUDE
E SOCIEDADE: O PAPEL DO MOVIMENTO ESTUDANTIL
O Movimento Estudantil
Se compreendermos movimento estudantil como qualquer atividade
realizada em conjunto por estudantes, na condição
de estudantes, podemos dizer que desde que Sócrates
resolveu montar sua escola já havia movimento estudantil.
A definição de movimento estudantil, todavia,
já não seria algo fácil se houvesse
pilhas de livros sobre o assunto e não havendo, fica
difícil não somente defini-lo como também
identificar suas origens. A primeira organização
estudantil formal fundada em nosso tempo foi a College Union,
na Universidade de Cambridge, Inglaterra, em 1815, e era
a união de três sociedades de debates, o que
nos leva a concluir que o movimento estudantil informal
já era bem desenvolvido àquela época.
Em 1823, na Universidade de Oxford, também na Inglaterra,
os estudantes organizaram sua instituição
e, anos mais tarde, em 1857, construíram uma sede
com salão de debates, biblioteca, sala de jantar,
sala de reuniões, salão de bilhar, lounges
e escritórios. Nessa época, a promoção
de debates era o principal objetivo das Students Unions
e seu sucesso era tanto que ficaram conhecidas como o caminho
para o parlamento inglês pois preparavam os estudantes
para a vida pública. Nos Estados Unidos os estudantes
de Harvard organizaram sua associação em 1832,
assim como na Inglaterra, para promover debates e em 1880
o nome Harvard Union foi adotado na esperança de
ampliar os objetivos da associação para além
da promoção de debates, como já havia
ocorrido em Oxford e Cambridge. Inaugurou-se então
em 1901 a sede da entidade em Harvard, seguindo os moldes
adotados em Oxford. Não obstante, o primeiro edifício
construído com o objetivo de abrigar uma organização
estudantil nos Estados Unidos foi Houston Hall, na Universidade
da Pensilvânia, em 1896. O conceito das organizações
estudantis rapidamente se espalhou pelo mundo e em 1824
surgiu a primeira organização estudantil na
Dinamarca, a Studenter-Foringen, uma união intercolegial
em Copenhague, em 1907 no Canadá, na McGill University,
em 1874 na Austrália, na Universidade de Sydney,
em 1915 em Taiwan, no Taipei Normal College e em 1918 no
Líbano, na Universidade Americana em Beirut. No Brasil,
embora certamente alguns estudantes possam ter se organizado
institucionalmente antes, foi em 1931 que o movimento estudantil
se consolidou no país:
"Em conformidade com o Estatuto da Universidade Brasileira,
baixado em 1931 por um decreto do Governo Provisório
constituído pela Revolução de 30, em
cada unidade básica do sistema de ensino superior
- a faculdade - deveria existir um órgão de
representação estudantil, o Diretório
Acadêmico, cujo estatuto seria aprovado pelo Conselho
Técnico-Administrativo do estabelecimento. As universidades
deveriam ter Diretórios Centrais, com estatutos redigidos
em acordo com os reitores e aprovados pelos Conselhos Universitários.
Órgãos oficiais da instituição,
o Diretório Acadêmico e o Diretório
Central dos Estudantes tinham acento, por força de
lei, no Conselho Departamental da faculdade e no Conselho
Universitário, respectivamente. A filiação
ao Diretório Acadêmico era automática.
E nas universidades públicas, além de pequenas
verbas, esse organismo contava ainda com franquia postal
e o direito ao timbre com as Armas da República."
(VELASCO E CRUZ, 1994:39)
Vemos, portanto, que, enquanto na Europa e nos Estados Unidos
as organizações estudantis foram o resultado
das ações e anseios dos próprios estudantes,
no Brasil resultaram de uma imposição legal,
advinda de um decreto exarado por um governo não
eleito que em breve tornar-se-ia uma ditadura auto-intitulada
Estado Novo. É importante ressaltar que este fenômeno
não ocorreu somente no âmbito no movimento
estudantil; é, igualmente, quase uma constante na
sociedade brasileira que, em vez de conquistar seus direitos,
os tem como se fossem benesses ou dádivas estatais.
O melhor exemplo disso é nossa legislação
trabalhista que veio numa bandeja servida por Getúlio
Vargas sem que os trabalhadores brasileiros fizessem o menor
esforço para consegui-la e rendeu ao presidente a
alcunha de pai dos pobres, sem que perdesse a condição
de mãe dos ricos, pois os tais direitos trabalhistas
não se estendiam aos trabalhadores rurais, cuja exploração
era fonte da riqueza da elite nacional. Foi nesse mesmo
período, em 1939, que a União Nacional dos
Estudantes, a UNE, foi fundada em solenidade com a presença
do presidente da República. Faz-se mister notar que
em 1938, no 1º Conselho Nacional dos Estudantes, reunião
que deu origem à UNE, os estudantes abstiveram-se
de discutir quaisquer temas políticos (VELASCO E
CRUZ, 1994:40), talvez inibidos pelo fato de viverem sob
uma das ditaduras mais sangrentas que o Brasil conheceu.
Uma vez estabelecida a UNE, não demorariam a surgir
as Uniões Estaduais dos Estudantes, as UEEs, e as
Uniões Municipais dos Estudantes, as UMEs. O caráter
"oficial" dessas organizações deu
origem a um verdadeiro monopólio da representação
estudantil, conforme aponta Guilhon Albuquerque:
"As divisões eram extremamente raras: até
1964, apesar da radicalização dos conflitos
políticos, só o movimento secundarista conheceu
organizações rivais, e isso exclusivamente
no nível local. Tais divisões não tinham
como se solidificar e crescer, já que novos grupos
não eram reconhecidos pela União Nacional
e com isso dificilmente encontrariam eco em nível
nacional ou regional... Outra conseqüência ...
era a visibilidade do poder: qualquer novo movimento de
idéias que quisesse trazer sua mensagem para o seio
do movimento estudantil tinha que se engajar 'nas estruturas'...
ou seja, entrar na engrenagem da luta pelo poder nos diretórios
e grêmios. (...) Em lugar de eclodir em miríades
de grupelhos autônomos, as diferentes tendências
que surgiam organizavam-se no interior do movimento. Essas
tendências se aliavam ou se enfrentavam, em todos
os níveis, desde o Diretório até a
UNE, dando lugar a uma espécie de mobilização
partidária permanente no meio estudantil." (apud
VELASCO E CRUZ, 1994:40)
As principais forças politicamente atuantes dentro
do movimento estudantil sempre buscaram sua identidade em
conceitos como esquerda e direita, os quais não são,
creio eu, os melhores aliados na busca pela identidade política
no mundo moderno; todavia, essas forças, embora de
uma forma ou de outra estivessem relacionadas a esses conceitos,
se apresentavam batizadas com outros nomes como os Nacionalistas,
por exemplo, que controlaram a entidade até o fim
dos anos 40 e foram os responsáveis pela campanha
"O Petróleo é Nosso". Interessante
notar que os Nacionalistas, embora se dissessem de esquerda,
serviram bem aos interesses do ditador à época,
pois de certa maneira mobilizaram a sociedade para garantir
a soberania nacional sobre o petróleo o que culminou
na criação da Petrobrás. A direita,
os então chamados Conservadores, foram a força
política dominante até 1956. Desde então,
a esquerda tem sido hegemônica no controle da entidade,
apresentando-se sob diferentes denominações
tais como a Juventude Universitária Católica,
a JUC, e a Ação Popular, a AP, movimentos
de esquerda progressista que até 1968 foram hegemônicos
na UNE. Em 1967, a Ação Popular aderiu ao
Marxismo e o Partido Comunista se tornou a força
hegemônica dentro do Movimento Estudantil Brasileiro
(VELASCO E CRUZ, 1994:44), situação que perdura
até os dias atuais, principalmente no que concerne
à União Nacional dos Estudantes.
Entre as principais ações da União
Nacional dos Estudantes estão a supracitada campanha
pela nacionalização do petróleo, a
campanha pela Reforma Universitária nos anos 60,
a oposição à ditadura militar iniciada
pelo golpe de 1964, que alguns chamam de revolução
tal como ocorreu em 1930, a participação na
campanha pelas diretas na década de 1980 e a campanha
pelo impeachment já na década de 1990. Percebe-se
claramente que a UNE tem se dedicado praticamente a questões
eminentemente políticas que não estão
diretamente relacionadas aos estudantes enquanto estudantes.
Isso leva inevitavelmente a alguns questionamentos como:
1) Quem realmente participa do movimento estudantil? 2)
Seriam os interesses da UNE os mesmos dos estudantes? 3)
Estariam todos eles engajados nessas questões? Não
se pode dizer que a resposta a essas questões seja
fácil de encontrar, contudo o que se percebe entre
os estudantes é uma tendência de busca a estruturas
alternativas para possibilitar sua expressão legítima
e representativa. Tal tendência se justifica como
origem das chamadas executivas de curso, dentre as quais
se destaca a Federação Nacional dos Estudantes
de Administração, criada oficialmente em 1994,
mas cuja semente já se encontrava plantada 20 anos
antes, com os estudantes de administração
organizados de modo a promover anualmente encontros com
os objetivos de discutir os temas relacionados diretamente
com os anseios dos estudantes.
"Na Assembléia Geral dos Estudantes de Administração,
realizada no 20o. ENEAD - Encontro Nacional dos Estudantes
de Administração, deliberou-se a criação
de uma entidade de representação máxima
- em nível nacional - dos discentes do curso de graduação
em Administração. Com isso, a SENEAD - Secretaria
Executiva dos Estudantes de Administração
- além de continuar realizando a sua principal atribuição
de organizar os ENEADs começa a se preocupar em como
estruturar tal Executiva de Curso, que fizesse um movimento
estudantil diferente, político, polêmico, representativo
e não partidário. Apesar da deliberação
ter sido feita em 1994, as articulações já
vinham sendo feitas há três anos, inclusive
com a preocupação de elaborar uma proposta
de Estatuto para a possível entidade. Em 22 de janeiro
de 1995, na cidade de Caxias do Sul / Rio Grande do Sul,
na Reunião Ordinária da SENEAD, tendo como
ponto de pauta o cumprimento da deliberação
anteriormente citada, nasce a FENEAD - Federação
Nacional dos Estudantes de Administração.
Trinta e dois estudantes de diversas partes do Brasil fizeram
questão de estarem presentes nessa reunião.
Um dos pontos mais polêmicos durante a reunião
de fundação da FENEAD foi se o Estatuto reconheceria
a UNE - União Nacional dos Estudantes - como entidade
máxima dos estudantes. Após longas discussões
chegou-se ao consenso de que a FENEAD seria a entidade de
representação máxima dos estudantes
de Administração, porém a UNE teria
sua representatividade perante todos os estudantes. Outro
grande debate foi sobre a forma de eleição
nas Assembléias Gerais dos Estudantes, no qual ficou
decidido que os estudantes seriam representados pelos seus
respectivos Centros e Diretórios Acadêmicos.
Assim, se torna necessário, pois as entidades de
base filiadas a FENEAD são exatamente estas, ou seja,
todo o movimento se origina daí."
Percebe-se claramente a preocupação em desvincular
a representação estudantil da política
partidária convencional e em criar um mecanismo pelo
qual os estudantes pudessem ser representados por quem quisessem,
pois a FENEAD somente representaria aqueles estudantes filiados
às entidades filiadas a ela. Outra forma de organização
estudantil surgida na busca de uma representação
legítima foram as Atléticas, responsáveis
por organizar atividades esportivas entre os estudantes
e, embora algumas tenham origens mais antigas que a própria
UNE, não eram por ela reconhecidas como representativas
até pouco tempo atrás.
"De 1903 até 1955, a organização
de prática esportiva na Escola Politécnica
foi coordenada pelo Departamento de Esportes do Grêmio
Politécnico. Em 1956 foi fundada a Associação
Atlética Acadêmica Politécnica, que
atualmente é o órgão oficial de representação
esportiva da Poli."
"A Associação Atlética Acadêmica
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, ou simplesmente
AAAFAU, foi fundada em 14 de junho de 1994. É um
órgão autônomo e legítimo de
representação dos alunos da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade de São Paulo, independente
de organizações políticas e religiosas.
(...) Essa Associação foi fundada por alunos
da FAU USP com o objetivo primordial de representar, unir
e estimular os estudantes da faculdade a participarem de
eventos culturais e principalmente esportivos."
É, portanto, plausível afirmar que um número
considerável de estudantes não só encontra-se
à margem do sistema de representação
estudantil como busca soluções alternativas
para a promoção das atividades e discussões
de seu interesse. E as perguntas que devem ser feitas são
em si mesmas respostas que justificam um repensar de todo
o Movimento Estudantil Brasileiro. Quem realmente está
inserido na estrutura tradicional da representação
estudantil? A maioria dos estudantes está interessada
e encontra meios para participar do movimento estudantil?
Se por acaso houver um desinteresse por parte dos estudantes
não seria justamente em razão de um afastamento
da realidade estudantil e de uma virtual impossibilidade
de participar ativamente da estrutura das organizações
"representativas" dos estudantes? Essas e outras
questões nos levam a uma reflexão acerca das
funções do movimento estudantil e, se nos
referimos aos seus primórdios, vemos que a promoção
da discussão política era apenas uma de suas
atividades, importante sem dúvida, mas não
a ponto de se tornar a única razão de ser
da entidade estudantil.
Pedro Trengrouse - Ex. Presidência
do Centro Acadêmico de Direito Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro e Membro da Social Democracia
Estudantil.